segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Mais uma polêmica: os produtores entendem de vinho?

Voltando ao assunto do post anterior, vou ter que defender os coitados dos malbecs argentinos (logo eu!), já que o problema não é só com eles, pois a questão na verdade se estende a muitos outros vinhos do mundo inteiro.

Aí vai logo a polêmica: um dos elementos que pra mim atrapalham a qualidade dos vinhos no mundo  é a falta de cultura degustativa de muitos produtores. E com isso não me refiro á analise sensorial ou técnicas de degustação, e sim em (falta de) provar vinho em geral.

Quando - uns 20 anos atrás, apareceram os primeiros vinhos obtidos com técnicas e tecnologias modernas (osmose inversa e concentradores vários, adição de proteínas, enzimas, estabilizantes e inúmeros outros produtos enológicos) isto foi visto come uma grande renascença pela “eno-comunidade” internacional: um estilo novo que finalmente resultava em vinhos macios, doces, redondos, cheios de fruta. Isto tendo os vinhos de Bordeaux come referencia, mas mais prontos e fáceis de beber.

Até aqui tudo bem, mas os anos seguintes mostraram que esta suposta revolução na verdade estava se transformando num grande engano. Os melhores vinhos modernos expressam as características acima citadas com elegância e finesse, evitando os excessos mais espalhafatosos, mas as novas técnicas na verdade deram à luz muitos vinhos que são caricaturas dos vinhos bordaleses. Então hoje temos que lidar com caldos potentes, alcoólicos, muito extraídos, com notas de carvalho novo, mas num conjunto desajeitado, meio fake, e pouco desfrutável.



A questão é esta: nada contra em ter um mini-bordalês por 30-40 reais se for feito simples e honestamente; já outra coisa é ter uma imitação mal sucedida do Bordeaux-style feita artificialmente e vendida de 300 pratas pra cima.

Daí a questão do vinho base Versus o vinho ícone. É até frequente em eventos de degustação de eu declarar ao produtor que preferi o vinho de entrada. Aí o cara com os olhos arregalados quase não acredita: como assim, você gosta deste vinho simples mais do que o nosso vinho top? Isto com a expressão de quem diz: tá ok, este italiano não entende coisa nenhuma de vinho. Aí para não parecer deselegante a minha resposta pronta é algo tipo: não, é que o top talvez precise de mais tempo para ficar no ponto, já o de entrada já está pronto para beber.

Ok, eu posso não entender muito sobre o assunto, mas possivelmente aquele produtor na minha frente entende menos que eu. Ou melhor, ele pode até entender tudo de enologia, de vinha, de vinifcação, etc. Mas, não necessariamente ele é um bom degustador.

Parece até banal, mas nem todo mundo se dá conta: o autor nem sempre é o melhor interprete. Quando um trabalho artístico (um texto literário, uma pintura, uma música, ou mais modestamente, um vinho) fica pronto, o autor certamente é uma das vozes mais qualificadas para interpreta-lo, mas não obrigatoriamente a mais competente.

Conheço músicos talentosíssimos, executores impecáveis, mas que não entendem ou não conhecem muito mais daquilo que são acostumados a tocar. Assim como eles conhecem e executam bem apenas aquele repertório, muitos produtores de vinho também bebem apenas o vinho deles, que consideram, obviamente, o melhor do mundo.

Ainda com a comparação musical: muitas canções e concertos se tornaram melhores em performances de outros interpretes mais que na versão original do autor. E muitos autores até escrevem diretamente para outros artistas, admitindo humildemente, que a versão do outro seria melhor que a dele.

Da mesma maneira o produtor de vinho e o enólogo não são necessariamente os donos da última palavra sobre os próprios vinhos.  E se muitos dos produtores tivessem esta mesma humildade e, sobretudo a curiosidade em provar sistematicamente os vinhos dos outros, provavelmente o cenário atual seria diferente.






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